O Fim do Velho Mundo e o Amanhecer sobre Cinzas
A calamidade nuclear, descrita por muitos como uma "chuva de merda atômica", não trouxe apenas a destruição imediata, mas preparou o terreno para um novo capítulo da existência. As crianças que nasceram depois do evento exibiam características genéticas distintas: orelhas pontudas, tonalidades de pele variadas, alterações significativas de estatura e força, dentes proeminentes e até chifres – uma vasta e imprevisível gama de traços que geravam tanto pavor quanto uma estranha fascinação.A Igreja rapidamente as rotulou de "demônios", e a legislação de Gibeão corroborou essa classificação. Todo recém-nascido com essas peculiaridades é imediatamente separado da mãe pelos sacerdotes após o parto, sob a crença de que a amamentação de tal criatura implicaria a "perda da alma" da genitora.
Aqueles que nascem fora de ambientes hospitalares, em regiões mais isoladas como fazendas e matas, são objeto de caça e extermínio pela guarda, e a população é instruída a permanecer em suas residências até que a "caçada" seja concluída. Em VelhaLondres, atualmente, esses indivíduos "diferentes" não são publicamente visíveis, evidenciando uma repressão severa.
Entretanto, a catástrofe também propiciou o surgimento de um fenômeno de natureza diferente: a intensificação das habilidades mágicas. Pessoas que antes eram consideradas curandeiras, cartomantes ou videntes, e que a sociedade via como "mentalmente desequilibradas" ou "gente meio louca", começaram a exibir poderes antes inimagináveis. A Igreja os denomina "Ungidos", os acadêmicos preferem "Despertos", e a população comum os conhece como "magos e feiticeiros". Embora menos numerosos que os "demônios", sua presença é suficientemente notória e suas capacidades são assombrosas – capazes de petrificar indivíduos ou manipular os elementos com notável facilidade. Dada sua periculosidade e potencial utilidade, tanto o Poder Secular quanto o Divino os mantêm sob rigorosa supervisão.
Gibeão e VelhaLondres: A Cidade-Estado Teocrática e Seus Poderes
Gibeão é, para a maioria de seus habitantes, o que resta do mundo, um bastião de ordem em meio aos escombros. A Constituição de Gibeão estabelece uma República organizada em torno de dois pilares de poder interdependentes: o Secular e o Divino.
O Poder Secular detém as funções legislativa e executiva, sendo o motor da governança. É responsável pela formulação e implementação das leis, e por toda a estrutura política e social do estado. Seus membros são os Senadores, eleitos por voto popular para mandatos de 5 anos, os quais elegem entre seus pares o Primeiro Ministro. A administração das cidades é auxiliada pelos Governadores, também eleitos para mandatos de 5 anos, que trabalham com seus designados.
O Poder Divino, por sua vez, exerce as funções de moderação e justiça. Sua missão é interpretar as leis, arbitrar conflitos de diversas naturezas e intervir em casos de abuso de poder, assegurando que os limites legais sejam estritamente observados e que os princípios éticos universais, conforme ditados pela fé, sejam mantidos. Seus membros são os Cenobitas, que trabalham diretamente com o Papa e são eleitos dentre os Essênios. Os Essênios são os responsáveis pelos cultos nas "células" de cada bairro, vestem túnicas vermelhas e ostentam um versículo do Verdadeiro Testamento tatuado no rosto, frequentemente: "Da gigante flor surgirá o último profeta".
A fé é a espinha dorsal da sociedade gibeonita. O Verdadeiro Testamento constitui a base moral e social, ditando normas como a hierarquia familiar – onde o filho se espelha no pai, mas obedece à mãe, e a mulher obedece a seu provedor, sendo "de um só homem até o fim de seu tempo". De forma contundente, o Testamento condena a homossexualidade masculina, afirmando que "Aquele homem que se deitar com outro homem será amaldiçoado e, assim como os demônios que caminham sobre a terra, deve ser expiado". A doutrina também reforça a perseguição aos "demônios" nascidos, sentenciando: "Pobre é a mãe cuja carne corrompida pelo pecado deu a luz a um demônio. Aquela que o amamentar deve ser banida, pois sua alma é suja como seu ventre. O neonato deve ser levado até os Cenobitas para sua libertação, livrando-o da vida em pecado."
O acesso à informação é estritamente controlado. As bibliotecas de Gibeão, outrora repositórios de vasto conhecimento e diversas histórias, agora contêm apenas obras sancionadas pelos Poderes Divino e Secular, portando o "selo de Gibeão". Mapas do mundo exterior, ou mesmo de certas regiões de Gibeão e da antiga Londres, são praticamente inexistentes, indicando uma política de isolamento e controle narrativo.
NovaLondres, ou como insistem em chamar, VelhaLondres: O Epicentro Caótico de Gibeão
VelhaLondres, reconstruída após a grande guerra, é uma metrópole de contrastes impressionantes. É uma cidade com arquitetura que evoca o passado e um layout desorganizado, mas vibrante com uma população que, oficialmente, soma 18 milhões – embora a exatidão desse número seja questionada em megafavelas como Mangrove e Deep South, onde a densidade populacional é imensa.
A cidade é um mosaico de raças, etnias e estratos sociais, que, embora coexistam, são segregados por uma "grande cerca invisível" que demarca a divisão entre riqueza e pobreza. As megafavelas do Sul se estendem por dezenas de quilômetros, com barracos empilhados em torres precárias que vivem desmoronando. Em contrapartida, as grandes propriedades de Evergreens, no Norte, oferecem vastas paisagens verdes.
Apesar da aparência caótica, VelhaLondres possui uma infraestrutura notável: energia elétrica universal fornecida pelas Usinas de Tesla no Norte, um sistema de transporte público abrangente que utiliza trens e balsas, e acesso a água potável e rede de esgoto em 100% das residências.
A cidade é segmentada em 27 Boroughs, distribuídos em quatro grandes regiões com identidades próprias:
- Norte (7 Boroughs): Predominantemente abastado e progressista, com áreas como North Centre, Upside East e Upside West, que compõem o "Centro da cidade", onde edificações históricas e modernas coexistem e a criminalidade é quase inexistente. Esta região inclui Red Bridge, Deep North e The Evergreens.
- Sul (8 Boroughs): A porção mais carente da cidade, com exceção de focos de resistência à gentrificação próximos ao rio, como South Centre, West River e East River. Abriga The South, Deep South (a periferia das megafavelas), South End, Loch e as desoladas instalações de The Hollows, antigas estações de tratamento de esgoto, hoje uma região pobre, feia e cheia de túneis e instalações abandonadas.
- Oeste (6 Boroughs): Exorbitantemente rico, com The Lakes, River Bend, West Park, Upper River End, River End e o sereno The Valley, conhecido por seus parques e vida selvagem, um refúgio para o narrador. É território de "gente muito rica", e "se você der bobeira um guarda te põe pra correr sem pensar duas vezes".
- Leste (6 Boroughs): Uma região de pobreza e atmosfera sombria, incluindo The Barracks, North Port, South Port, Mangrove (com suas palafitas) e Holly Land. O Porto opera 24 horas, funcionando como um centro de atividades ilícitas noturnas (tráfico, prostituição barata, homens bêbados, festas clandestinas com uso de drogas, lutas ilegais, negócios nebulosos) e uma área de trabalho exaustivo sob a vigilância constante da polícia durante o dia, com uma "multidão de trabalhadores explorados e lutando sob o sol".
No coração dessa metrópole, os Mensageiros, frequentemente adolescentes (até 15 anos), são o que pode ser chamado de "o sangue da cidade". Eles são responsáveis pela entrega ágil de pacotes, correspondências, recados e pequenos pagamentos – desde o lícito até o ilícito (drogas, ameaças de morte). Seu serviço é essencial e legalmente protegido; atentar contra um mensageiro oficial e registrado é algo impensável, embora possam ser tratados com grande formalidade ou desdém. Eles cruzam a cidade utilizando trens, patinetes, skates ou bicicletas, dependendo da urgência, e se misturam à diversa população nos transportes públicos, onde "crentes com roupa social" convivem com "bandidos mal encarados", "vendedoras de cabelo colorido" e "e-punks prontos para o conflito".
Este é o mundo de Gibeão: um cenário forjado pela catástrofe, rigidamente moldado pela fé e pela lei, e habitado por uma humanidade que se agarra à existência, ao poder e à sobrevivência, enquanto os ecos de um passado distante ecoam e novas realidades desafiam as ordens estabelecidas. A vida aqui é um constante lembrete de que o velho mundo se foi, e o que restou é um tabuleiro complexo de fé, poder, sobrevivência e um tipo de magia que desafia a lógica.

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